segunda-feira, 10 de julho de 2017

Livre-arbítrio: Uma resposta a meu amigo

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Uma resposta a meu irmão em Cristo Juvenil Lino do blog Reflexões Bíblicas sobre a questão do livre-arbítrio. Com base em seu texto “Deus nos deu o livre-arbítrio?




Falar sobre a liberdade humana e a soberania de Deus é um assunto extremamente complicado e que suscita uma série de questões. Eu confesso que sou muito pequeno para trazer uma resposta contundente sobre o assunto, até mesmo porque, eu nem consigo entender muito do que leio a respeito. Eu reconheço minhas limitações. Mesmo assim, eu gostaria de apresentar meu ponto de vista sobre esta questão, mais precisamente, minha resposta ao seu ponto de vista.

Discussões sobre o Livre-arbítrio

Reflexões e discussões sobre a liberdade do homem (ou a ausência dela) existem desde a muito tempo na igreja cristã. Essa não é uma ideia que vem do arminianismo, como você declarou. Segundo Alister E. McGrath em Teologia sistemática, histórica e filosófica - Shedd Publicações – 2005 – o termo livre-arbítrio foi introduzido na igreja ocidental pelo teólogo Tertuliano no século II e foi trabalhado por Agostinho que nasceu no século IV, muito antes, portanto, de Armínio que nasceu no século XVI. Mas filósofos já deliberavam sobre este assunto muito antes de Cristo nascer. O próprio Tertuliano usou este termo emprestando-o do estoicismo que surgiu no século III a.C.

Este é um tema que traz profundas implicações sobre vários aspectos da nossa vida. A noção de livre-arbítrio incidi, por exemplo, diretamente na questão da responsabilidade moral de nossos atos. Já na conclusão de seu tratado, usando de retórica, você faz as seguintes perguntas:
”Tem-se liberdade por que prestar contas?


Se Deus me deu livre-arbítrio por que tenho que dar contas de meus atos?


E que moral Deus tem de me cobrar os atos de uma liberdade que ele me [deu]?"
Mas perceba que a liberdade e a responsabilidade não são excludentes.

Deixe-me ser extremista para esclarecer meu ponto de vista:

Imagine que um homem possua um robô de controle remoto. Imagine que este homem coloque nas mãos deste robô uma arma e controlando-o a distância, dispare e mate outro homem. Diante deste cenário eu pergunto: qual foi a responsabilidade moral do robô neste homicídio? Nenhuma! Ele não possui volição, nem capacidade de julgamento e suas ações foram totalmente determinadas pelo homem que o controlava.

Num caso de ausência total de liberdade seríamos como este robô. Não seríamos agentes livres e a responsabilidade de nossas ações seria inteiramente da causa determinante (na alegoria, do homem com o controle remoto). Portanto, se não há opções de escolha e se a ação independe da minha vontade, como posso ser responsabilizado moralmente por qualquer coisa? É justamente por termos liberdade que podemos ser responsabilizados por nossos atos.

Buscando uma definição

Não é simples definirmos o que significa “livre-arbítrio”, porque devemos levar em consideração que há mais de uma interpretação a cerca do que deve ser considerado uma pessoa realmente “livre”.

De modo geral e simplista, “livre-arbítrio” é popularmente definido como ”o direito de escolha” ou “liberdade para escolher”, entendendo-se por isso ser a liberdade que cada pessoa tem para julgar e decidir que ação tomar diante de determinada situação. É com este sentido que a grande maioria das pessoas, cristãs ou não, empregam esta expressão.

No campo da filosofia há uma infinidade de conceitos. Dentro da teologia eu quero destacar duas interpretações para o livre-arbítrio:

Livre-arbítrio libertário – Casa-se bem com a definição que você apresentou:
”É a liberdade que o homem tem de tomar decisões sem constrangimento e a crença de que o comportamento humano é autônomo"
Define-se como a possibilidade de alguém poder fazer mais de uma escolha em determinada circunstância, isto é, diante de uma situação “X” eu posso escolher entre a ação “A” ou “B”, ou ainda, entre “A” e “não A”. Perceba que se eu tiver a opção de agir ou não agir, isso também me dá mais de uma opção de escolha.

Dentro desta definição, qualquer circunstância que nos deixasse com apenas uma escolha, sendo impossível escolher outra coisa, isso anularia nosso livre-arbítrio.

Livre-arbítirio compatibilista ou determinismo suave – Define-se como a possibilidade de alguém tomar uma decisão voluntária; é a possibilidade de alguém fazer o que deseja desde que esta decisão não seja, nem fisicamente forçada, nem psicologicamente coagida.

Embora as diferentes definições pareçam ser iguais na prática, há, na verdade, uma profunda diferença. Os compatibilistas admitem, por exemplo, que se uma pessoa possuir um caráter formado e “solidificado” de uma maneira tal que em determinada situação ela venha a tomar uma decisão que seja inevitável, por causa da formação do seu caráter, essa decisão ainda assim, foi livre e moralmente significativa. Os libertários não admitem essa possibilidade. Se a decisão foi “inevitável”, logo não havia outras opções de escolha e isso equivaleria dizer que esta decisão não foi moralmente significativa e, portanto, não foi totalmente livre.

É claro que para o desenvolvimento de cada um destes pensamentos há muito mais o que ser dito, pois cada posionamento gera suas respectivas implicações e questionamentos e seus defensores “lutam” para explicá-las adequadamente. Eu, como já disse, sou muito pequeno para entrar em uma discussão tão complexa e creio que, para o que me proponho nesta resposta, o que apresentei já é suficiente.

Analisando sua argumentação

Perceba que seja qual for a definição que se assuma por "livre-arbítrio" dentre as apresentadas, a imposição de regras, leis ou mandamentos, não anula o livre-arbítrio, uma vez que obedecer ou não já constitui uma questão de escolha e depende da vontade de cada um.

Portanto, o fato de Deus ter ordenado não comer da árvore do conhecimento, não anula o livre-arbítrio de Adão de optar por obedecer ou não, nem tampouco a liberdade de Eva de apreciar o fruto, julgá-lo agradável e voluntariamente comer o que lhe era desejável. Assim, considerar o livre-arbítrio do homem inexistente, por haver Deus estabelecido que cumpramos a Sua vontade é uma falha de conceito, já que a própria rebeldia já consiste em uma questão de escolha vonluntária.

Da mesma forma, quando Deus apresenta, diante do povo de Israel, as consequências que suas ações trariam (a bênção ou a maldição“Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição; A bênção, quando cumprirdes os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que hoje vos mando; Porém a maldição, se não cumprirdes os mandamentos do SENHOR vosso Deus, e vos desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que não conhecestes” (Dt 11:26-28)), isso não limitou o livre-arbítrio de cada um, ainda que Deus tenha exigido obediênciaDe acordo com a explicação do Juvenil o verbo mandar e ordenar na raiz hebraica quer dizer: dar ordens,exigir obediência, pois segundo o que você mesmo declarou...
”[A ação], de acordo com essa teoria do livre-arbítrio, é uma escolha livre, mesmo quando o indivíduo sabe que a ação escolhida pode trazer consequencias graves”
Apresentando como exemplo a analogia “a porta estreita e a porta larga“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” (Mt 7:13)” você usou como argumento de que a imposição de condições essenciais para herdarmos os céus quebra qualquer impetração de liberdade. Mas ao contrário do que você declarou em seu texto, livre-arbítrio não nos remete a “facilidades”, e sim a “vontade”, assim sendo, viver em renuncia, em dedicação, em santificação, não se trata da exclusão do livre-arbítrio, mas do exercício que fazemos dele, já que a responsabilidade é toda minha se, me desviando da porta estreita, eu entrar pela porta larga.

Outro problema que a sua argumentação levanta é o fato de tratar do livre-arbítrio por um viés puramente moral. Mas toda nossa vida é regida por uma infinidade de questões de ordem puramente natural. Pense, por exemplo, em todas as decisões que precisamos tomar do momento em que levantamos até a hora de irmos trabalhar... Em que momento levantar; quando tomar banho; lavar ou não o cabelo; como pentear o cabelo; com gel? Sem gel? Penteado? Arrepiado? Que tipo de roupa usar; qual cor de roupa usar; preta? Vermelha? Tomar ou não café-da-manhã; o que tomar no café-da-manhã... Quase que ininterruptamente precisamos tomar decisões e fazer escolhas. Em quais destas situações somos privados de livre-arbítrio? – Pergunto sob a ótica do objetivo do seu tratado de desautorizar a ideia de que Deus nos deu o livre arbítrio.

A soberania de Deus e a liberdade do homem

Neste momento quero deixar claro que, embora defenda o livre-arbítrio do homem, de forma alguma nego a soberania de Deus. Deus é soberano e pode interferir sim no livre-arbítrio do homem quando bem entender para cumprir os seus propósitos. Mas não acredito que Ele faça isso privando o homem de toda a sua liberdade – isso seria o mesmo que dizer que Deus é responsável pelo pecado (como apresentei na alegoria do robô).

Mesmo no caso de Faraó em que Deus claramente declara que endureceria seu coração, não consigo enxergar que seu livre-arbítrio tenha sido totalmente suprimido, pois do mesmo modo que as Escrituras declaram que Deus endureceu o coração de Faraó (Ex 4:21"E disse o SENHOR a Moisés: Quando voltares ao Egito, atenta que faças diante de Faraó todas as maravilhas que tenho posto na tua mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo”; 7:3”Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas”; 9:12”Porém o SENHOR endureceu o coração de Faraó, e não os ouviu, como o SENHOR tinha dito a Moisés”; 10:1,20,27”Depois disse o SENHOR a Moisés: Vai a Faraó, porque tenho endurecido o seu coração, e o coração de seus servos, para fazer estes meus sinais no meio deles”

”O SENHOR, porém, endureceu o coração de Faraó, e este não deixou ir os filhos de Israel”

”O SENHOR, porém, endureceu o coração de Faraó, e este não os quis deixar ir”
; 11:10”E Moisés e Arão fizeram todas estas maravilhas diante de Faraó; mas o SENHOR endureceu o coração de Faraó, que não deixou ir os filhos de Israel da sua terra”; 14:4,8”E eu endurecerei o coração de Faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, e saberão os egípcios que eu sou o SENHOR. E eles fizeram assim”

”Porque o SENHOR endureceu o coração de Faraó, rei do Egito, para que perseguisse aos filhos de Israel; porém os filhos de Israel saíram com alta mão”
), também declara que Faraó, por sua própria determinação, impediu que o povo saísse (Ex 3:19”Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, nem ainda por uma mão forte”; 7:13,22”Porém o coração de Faraó se endureceu, e não os ouviu, como o SENHOR tinha falado”

”Porém os magos do Egito também fizeram o mesmo com os seus encantamentos; de modo que o coração de Faraó se endureceu, e não os ouviu, como o SENHOR tinha dito”
; 8:15,19,32”Vendo, pois, Faraó que havia descanso, endureceu o seu coração, e não os ouviu, como o SENHOR tinha dito”

”Então disseram os magos a Faraó: Isto é o dedo de Deus. Porém o coração de Faraó se endureceu, e não os ouvia, como o SENHOR tinha dito”

”Mas endureceu Faraó ainda esta vez seu coração, e não deixou ir o povo”
; 9:7,34-35”E Faraó enviou a ver, e eis que do gado de Israel não morrera nenhum; porém o coração de Faraó se agravou, e não deixou ir o povo”

”Vendo Faraó que cessou a chuva, e a saraiva, e os trovões, pecou ainda mais; e endureceu o seu coração, ele e os seus servos. Assim o coração de Faraó se endureceu, e não deixou ir os filhos de Israel, como o SENHOR tinha dito por Moisés”
; 13:15”Porque sucedeu que, endurecendo-se Faraó, para não nos deixar ir, o SENHOR matou todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito do homem até o primogênito dos animais; por isso eu sacrifico ao SENHOR todos os primogênitos, sendo machos; porém a todo o primogênito de meus filhos eu resgato”). Isso mostra não só a soberania de Deus determinando os atos para cumprirem o Seu propósito, como também a liberdade do homem atuando conforme a obstinação de seu próprio coração. Esta é uma situação de ocorrência duplamente causada. É a isso que os compatibilistas chamam de doutrina da “concorrência”, quando um mesmo evento é, ao mesmo tempo, plenamente (cem por cento) causado por Deus e plenamente (cem por cento) causado pela criatura que o realiza. Lembre-se que segundo o conceito compatibilista de liberdade, ainda que Deus tenha determinado uma situação, a ação humana será livre, desde que feita voluntariamente e sem coerção.

Aqui, faço uso das suas palavras:
“Deus se utiliza do livre-arbítrio do homem sem destruí-lo, apesar de não sabermos exprimir de que maneira Ele o faz”

(Neste trecho de seu tratado – “O livre arbítrio e o determinismo” – eu fiquei realmente muito confuso, pois você defendeu o livre-arbítrio do homem ao invés de desautorizá-lo)

Não podemos elevar a soberania de Deus a tal ponto em que a liberdade do homem e a sua responsabilidade sejam eliminadas, nem tampouco exaltar a liberdade do homem a ponto de eliminar a soberania de Deus.

Neste conflito entre o livre-arbítrio (liberdade do homem) e a soberania de Deus (liberdade de Deus) não há como não relegarmos nossa reflexão ao vasto mundo dos Mistérios de Deus.

“As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt 29:29)

Fomos criados a imagem e semelhança de Deus

Deus nos criou a Sua imagem e semelhança para que pudéssemos ter comunhão com Ele. O Senhor não criou “deuses” na terra, mas criou seres que podiam refletir, de certo modo e em certo grau, a Sua moral, o Seu intelecto, a Sua volição. Este padrão estabelecido por Deus na criação, inevitavelmente, concede aos homens livre-arbítrio, já que nos foi dado capacidade de julgar o que é bom (pesar as consequências dos nossos atos) e de optar pelo que nos é desejável – ainda que esta escolha implique em desobedecer as ordens de Deus.

A responsabilidade da ação humana (inexistente sem liberdade) não se trata de um conceito arminiano, ou calvinista, ou exclusivo de qualquer corrente teológica, mas é uma verdade bíblica aceita e defendida por qualquer cristão sincero.

Sei que sou leigo no assunto, mas acredito que a maior parte das discussões sobre o livre-arbítrio não é um debate sobre a existência da liberdade em si, mas da amplitude dessa liberdade e sua relação com a soberania de Deus. Até mesmo porque, a "Confissão de fé de Westminster" (reformada e calvinista) também confirma a liberdade e a responsabilidade dos homens:

"Deus, desde toda a eternidade, por meio do seu mais sábio e santo conselho, de sua própria vontade, livre e imutavelmente, ordenou o que quer que seja que aconteça; contudo, por meio disso, Deus não é o autor do pecado; nem isso é uma violência à vontade das criaturas, nem é a liberdade ou a contingência de segundas causas suprimida, mas, em vez disso, estabelecida" (grifo meu)

Contradições

Eu entendi qual foi o objetivo do seu estudo, mas seu posicionamento está muito confuso. Ora você nega completamente a existência de livre-arbítrio, ora você o defende. Num momento você aplica um conceito para “livre-arbítrio”, noutro transmite uma ideia totalmente diferente.

Você inicia seu tratado definindo o livre-arbítrio como a liberdade que o homem tem de tomar decisões sem constrangimento, mas conclui atribuindo a esta liberdade o mesmo significado de “libertinagem”:
“Deus não deu o livre-arbítrio ao homem, essa pseudo-liberdade foi uma herança (...) de Adão e seremos julgados por essa orgulhosa liberdade (libertinagem)”

É bom lembrarmos que o que herdamos de Adão não foi a liberdade, mas a natureza pecaminosa

Isso se torna mais problemático quando lemos que sua...
“...intenção é sem dúvida desequilibrar a posição dos arminianos leigos que sempre declaram que DEUS deu livre-arbítrio ao homem”
Isso nos leva a crer que você esteja atribuindo aos arminianos uma "defesa da legalidade de vivermos dissolutamente". Mas não acredito que arminianos, ou pentecostais, ou qualquer outro grupo genuinamente cristão defendam a libertinagem. Tenho certeza que você também não acredita. Qualquer arminiano poderia defender-se dizendo que a libertinagem é o resultado do uso irresponsável do livre-arbítrio e não o próprio livre-arbítrio.

Você criticou os arminianos por defenderem o livre-arbítrio, mas sua argumentação não confrontou o entendimento arminiano de liberdade. Na verdade você apresentou uma definição de livre-arbítrio (que se encaixa com o pensamento arminiano), mas desenvolveu o tema atribuindo um outro sentido ao termo – e ainda assim insistiu que esta era a visão arminiana.

Dentro da argumentação que você fez, podemos encontrar, ainda, uma contradição lógica.

Levando-se em consideração toda a argumentação que você apresentou nos tópicos “Exegese Bíblica” e “Conclusão”, podemos entender que, segundo o seu entendimento, a imposição de condições ou a existência de mandamentos e leis anulam nosso livre-arbítrio e, por não haver livre-arbítrio seremos julgados por nossos atos. Bem, com este entendimento de liberdade e responsabilidade humanas, analisemos as seguintes declarações:
  1. Deus não deu o livre-arbítrio ao homem, essa pseudo-liberdade foi uma herança (...) de Adão e seremos julgados por essa orgulhosa liberdade (libertinagem)
  2. Somos servos de Deus e não gozamos da liberdade de fazer aquilo que é pecado...
  3. A “imposição de condições” quebra qualquer impetração de liberdade...
  4. Este estudo é uma desautorização do livre-arbítrio do Cristão, só o homem separado de Deus o tem
  5. ...escravo ou servo, [são] pessoas que vivem abdicando dos direitos de liberdade. Nós Cristãos (...) negamos a libertinagem e (...) renunciamos esse maldito livre-abítrio...
Contradição 1

  • Se o homem separado de Deus tem esse livre-arbítrio (4), então...

  • Ele goza de liberdade para fazer aquilo que é pecado (2), pois...

  • Para o homem separado de Deus que tem livre-arbítrio não há qualquer imposição de condições (3), logo...

  • Os homens separados de Deus não serão julgados, pois só os cristãos que não possuem livre-arbítrio serão julgados (1) Afinal de contas...

  • Tem-se liberdade por que prestar contas?


  • Contradição 2

  • Se Deus não deu livre-arbítrio ao homem (1) e só o homem separado de Deus o tem (4), então...

  • Adão e Eva foram os únicos a serem privados de livre-arbítrio, já que depois da queda todos estavam separados de Deus. Isto posto, podemos crer que Jesus morreu para redimir somente a Adão e Eva, já que todos os demais têm o livre-arbítrio (4) e gozam da liberdade para fazer aquilo que é pecado (2), não carecendo, portanto, de salvação.

  • Perceba que o conceito de livre-arbítrio não pode ser diferente para cristãos e não cristãos. A mesma liberdade concedida a um, deve necessariamente ser concedida ao outro. O que vai mudar são as consequências geradas pelas ações dentro desta liberdade.

    Contradição 3

  • Se servos são pessoas que vivem abdicando dos seus direitos de liberdade (5), então...

  • Não é possível negar que estes servos possuam liberdade, pois não se abdica de um direito que não se possui.

  • Se o cristão não possui livre-arbítrio (4), então...

  • Não há o que se renunciar (5), mas se renunciamos esse maldito livre-arbítrio (5), então...

  • Não podemos negar que o possuímos, pois não é possível renunciarmos de algo que não temos.


  • Estes pontos tornam confusa a sua interpretação de livre-arbítrio.

    Entendi também que sua argumentação sobre o livre-arbítrio incide mais na questão da “legalidade” (o que devemos fazer), do que na questão da “possibilidade” (o que temos a capacidade de fazer) e de acordo com este raciocínio, nenhum cristão sincero discordaria de você. Algum cristão sincero discordaria que todos nós estamos sujeitos a pecar (temos a capacidade), mas que de modo nenhum devamos pecar?

    ķlllll Certo é que nenhum cristão verdadeiro defenderia a existência do livre-arbítrio como justificativa para permanecer no pecado.

    A vida que vivemos, vivemos na fé do Filho de Deus e aguardamos ansiosos pelo dia que seremos livres até da vontade de pecar, mas até que este dia chegue, infelizmente, teremos que encarar a verdade de que o pecado é uma realidade em nossas vidas, mais frequente do que gostaríamos que fosse.

    Nós oramos sim ao Pai, pedindo que a Sua vontade seja feita, mas porque sabemos que por causa da nossa atual condição carnal, não corresponderemos a santidade de Deus se fizermos a nossa própria vontade.

    Mas infelizmente não somos impedidos de pecar... melhor seria se fôssemos!

    Este assunto é importante, profundo e levanta muitas questões. Por isso, eu, com toda a humildade, sugiro a você que analise seus argumentos e reveja a apresentação de seu tratado, afim de explicá-lo com maior clareza. Sei que sua intenção não foi levantar polêmica pela polêmica, mas para trazer edificação pela luz do evangelho de Cristo.

    Fiquei a vontade para lhe escrever esta resposta porque sei que você, não só, esperava por críticas e mais críticas, mas também porque sabe o quanto o admiro e o amo em Cristo Jesus. Esta resposta não é, portanto, fruto de afronta mesquinha, mas de pura divergência de opiniões.

    Certamente estudos como este nos fazem refletir a cerca de nossa situação no Reino de Deus e nos levam a confrontar velhas certezas. Isto nos enriquece e muito!

    Fica na Paz do Senhor, amado!

    Seu irmão em Cristo

    Dovaniano

    Estilos

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    <cite></cite>,
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    Além de possíveis efeitos visuais para tornar a leitura ainda mais divertida.
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    Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho e a verdade é a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim

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    domingo, 9 de julho de 2017

    Jesus, Coca-Cola e a mulher samaritana

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    Ricardo Gondim Rodrigues

    Às vezes, a gente ouve certas coisas que não aceita, mas não sabe bem o porquê. Só depois de algum tempo entende. Não foi por mera antipatia que aquela mensagem não desceu bem. Recordo-me quando ouvi pela primeira vez o paralelo entre Jesus e a Coca-Cola. O pregador, inflamado de zelo e paixão missionária, afirmava que numa viagem ao interior do Haiti, sob uma temperatura de mais de 40 graus, sentiu-se aliviado quando parou num quiosque miserável feito de palha de coqueiros e pôde comprar uma garrafa do mais famoso refrigerante do mundo. Devidamente refeito depois de beber sua Coca geladinha, perguntou ao dono da venda se já ouvira falar de Jesus. Ele não sabia de quem se tratava. E o nosso palestrante fez sua analogia, tentando dar um choque na complacência da igreja ocidental: “A Coca-Cola conseguiu alcançar o mundo inteiro em menos de um século e a igreja cristã ainda não cumpriu a ordem da Grande Comissão em mais de 20 séculos!”. Depois daquela primeira exortação, já devo ter escutado essa mesma comparação uma dúzia de vezes em diversas conferências missionárias. Verdade ou tolice? Pior. Estou certo que essas ilustrações não são meros simplismos, nascem de grandes erros teológicos (ou ideológicos?).

    A Coca-Cola é uma bebida inventada na Geórgia, Estados Unidos, com uma fórmula secreta. Sabe-se que sua receita original continha alguns ingredientes também encontrados na cocaína, daí o seu nome. Seus fabricantes nunca intencionaram outro propósito senão matar a sede das pessoas. A The Coca-Cola Company não convoca ninguém a rever valores do caráter, não confronta estruturas de morte, não se propõe a aliviar culpa, não revela a eternidade e nem Deus. Para chegar aos quiosques mais remotos do globo, bastou criar um produto doce e gaseificado. Investir bilhões em boas estratégias de propaganda, construir fábricas e desenvolver uma boa rede de distribuição para que o produto chegasse com a mesma qualidade nos pontos de venda. Tentar comparar a missão da igreja no anúncio do Reino de Deus às estratégias de mercado de um refrigerante, beira o absurdo. Confunde-se um bem material com uma pessoa e enxerga-se na mensagem um produto. Os missiólogos sucumbiram à lógica do mercado do novo milênio? Acreditam mesmo que cumpriremos nossa missão com os instrumentais corporativos? Tudo pode se tornar um produto?

    No Brasil, o esforça-se muito para “vender” o Evangelho. Quase não se usa a mídia para proclamar os conteúdos do Evangelho. Alardeiam-se os benefícios da fé. Basta observar a enormidade de tempo gasto divulgando os horários dos cultos, a eficácia da oração, mostrando que aquela igreja é melhor e que a sua mensagem é a mais forte para resolver todos os problemas das pessoas. Aborda-se o Evangelho como um produto eficaz e adota-se uma mentalidade empresarial no seu anúncio. Prometem-se enormes possibilidades. Tratam as pessoas como clientes e sem constrangimento, anuncia-se que qualquer um pode adquirir esse determinado benefício com um esforço mínimo. As igrejas se transformam em balcões de serviços religiosos ou supermercados da fé. A tendência de oferecer cultos diferenciados e as intermináveis campanhas de milagres demonstram bem esse espírito. Como um supermercado com as gôndolas recheadas de produtos, as igrejas procuram incrementar os “serviços” ao gosto dos fregueses. Os pastores dividem os dias da semana com programações atrativas; gastam suas energias desenvolvendo estratégias que atraiam o maior número de pessoas. Sonham com auditórios lotados. Campanhas, correntes e demonstrações grotescas de exorcismos e milagres financeiros se sucedem. As pessoas, por sua vez, se achegam, seduzidos pelas promoções das prateleiras eclesiásticas.

    Esse modelo induz as pessoas a adorarem a Deus por aquilo que ele dá e não por quem é. Não se anuncia o senhorio de Cristo, apenas os benefícios da fé. Os crentes acabam tratando a Bíblia como um amuleto e, supersticiosos, continuam presos ao medo. Vive-se uma religião de consumo.

    Mas existe outra dimensão ainda mais sutil. Naomi Klein, jornalista canadense, publicou recentemente “Sem Logo” (Editora Record) para denunciar a tirania das marcas em um planeta obcecado pelo consumo. Ela defende a tese de que a grandes corporações do mercado global não vendem apenas os seus produtos, mas a marca. Procuram criar uma filosofia de vida embutida em seus produtos. Desejam induzir seus consumidores a acreditarem que podem viver um determinado estilo de vida, desde que comprem aquela marca específica. Assim os fumantes de Marlboro imaginam personificar o “cowboy” solitário, mesmo morando em um apartamento. Quando atletas amadores vestem as roupas ou calçam os tênis da Nike, acham que se transformam em campeões. Gente que vive presa no trânsito apinhado das grandes metrópoles, ao dirigir jipes com tração nas quatro rodas, sente-se desbravando sertões. Klein declara: “’Marcas, não produtos!’ tornou-se o grito de guerra de um renascimento do marketing liderado por uma nova estirpe de empresas que se viam como ‘agentes de significado’ em vez de fabricantes de produtos. Segundo o velho paradigma, tudo o que o marketing vendia era um produto. De acordo com o novo modelo, contudo, o produto sempre é secundário ao verdadeiro artigo. A marca e a sua venda adquirem um componente adicional que só pode ser descrito como espiritual”.

    Infelizmente percebe-se o mesmo em determinados círculos cristãos. Querem fazer do Evangelho uma grife. Como? Primeiro transforma-se um seleto grupo de evangelistas, cantores e pastores em superestrelas ao estilo de Hollywood. Depois associam seu nome a grandes eventos e dão-lhes o holofote. Ensinam-lhes habilidades espirituais acima da média. Assim produzem-se ícones semelhantes aos do mundo do entretenimento. Eles aglutinam multidões, vendem qualquer coisa e criam novas modas. A indústria fonográfica enriquece, os congressos se enchem, e os novos astros do mundo “gospel” alavancam suas igrejas.

    Jesus dialogou com uma mulher samaritana e ofereceu-lhe uma água viva. A mulher imaginou essa água com raciocínios concretos. Pensou que ao beber, nunca mais teria sede. Uma água dessas hoje, devidamente comercializada, seria um tesouro sem preço. Dá-me dessa água e assim nunca mais terei que voltar aqui. Jesus corrigiu sua linha de pensamento. A água que ele oferecia não era mágica, mas um relacionamento: filhos e filhas adorando ao Criador em espírito em verdade. Infelizmente muitos evangélicos brasileiros propagandeiam água mágica. Pretensamente matando a sede de qualquer um no estalar dos dedos.

    O evangelho não é produto ou grife, volto a repetir, mas uma alvissareira notícia. Não deveria se escravizar às regras do mercado. Ricardo Mariano em sua tese de doutoramento concluiu, para a vergonha de tantas igrejas neo-pentecostais: “As concessões mágicas feitas pelas igrejas pentecostais às massas desafortunadas, por certo, não constituem tão-somente meras concessões... observa-se que a oferta pentecostal de serviços mágicos segue cada vez mais uma dinâmica empresarial, ditada pela férrea lógica do mercado religioso, que pressiona os diferentes concorrentes religiosos a acirrarem seu ativismo e a tornarem mais eficazes suas ações e estratégias evangelísticas”
    Essa mercadoria religiosa caricaturada de evangelho não representa o leito principal da tradição apostólica. A indústria que encena essa coreografia carismática de muito barulho e pouca eficácia, não conta com o aval de Deus. Há de se voltar ao anúncio doloroso do arrependimento como primeira atitude para os candidatos ao Reino. Não se pode, em nome de templos lotados, omitir a mensagem da cruz. Precisa-se repetir sem medo a mensagem de Jesus: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Marcos 8.34).

    Se não voltarmos aos fundamentos do Evangelho, teremos sempre clientes religiosos, nunca seguidores de Cristo. Faremos proselitismo sem evangelizar. Aumentaremos nossa arrecadação sem denunciar pecados. Construiremos instituições humanas sem encarnação do Reino de Deus. E pior, continuaremos confundimos Jesus com Coca-Cola. No Maranhão há um refrigerante de grande sucesso com a marca Jesus. Entretanto, não se pode desejar alcançar o sucesso transformando Jesus numa soda e as igrejas em quiosques religiosos.

    Que Deus tenha piedade de nós.

    Soli Deo Gloria.

    Pr. Ricardo Gondim

    www.ricardogondim.com.br

    quarta-feira, 5 de julho de 2017

    Batismo com fogo: que fogo é este?

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    “E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo” (Mateus 3:11)
    O Senhor batiza com o Espírito Santo e com fogo. Que ‘fogo’ é este?

    Segundo a hermenêutica bíblica (prática da interpretação das Escrituras Sagradas) há fatores importantes que devem ser levados em conta quando analisamos o texto sagrado. Conhecer o ‘autor’, o ‘porque escreveu’ e o ‘para quem escreveu’, são ferramentas valiosíssimas para uma boa compreensão do texto. No intuito de se preservar a ortodoxia dos ensinamentos bíblicos, desenvolveu-se na hermenêutica bíblica, uma série de regras para “nortear” o estudo da interpretação. Vamos analisar, então, o texto de Mt 3:11 segundo as principais leis da hermenêutica sacra: A Lei do contexto, a Lei dos textos paralelos e a Lei do autor.

    1. Lei do contexto


    Contexto é o "lugar" onde o versículo em questão está inserido. O contexto trata do tema ou assunto que está sendo abordado nos versículos anteriores e posteriores ao texto em estudo (é o que costuma-se chamar de contexto imediato). Algumas vezes, para um melhor entendimento do contexto é necessário analisar todo o capítulo, ou todo o livro em que o versículo está inserido. Outras vezes a Bíblia como um todo é o contexto que deve ser levado em consideração. Costuma-se dizer que “um versículo deve concordar com toda a Bíblia e toda a Bíblia deve concordar com um versículo”.

    Vamos analisar então, o contexto de Mt 3:11 (os versículos anteriores e postores)

    v.1 - E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judéia,
    v.2 - E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.
    v.5 - Então ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão;
    v.6 - E eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.
    v.7 - E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?
    v.8 - Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;
    v.10 - E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.
    v.11 - E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.
    v.12 - Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará.
    Vemos por este texto que João Batista surgiu no deserto, pregando o arrependimento e batizando todos da Judéia e circunvizinhança. O texto em estudo (v.11) faz parte do discurso pronunciado João Batista na ocasião. O que motivou este discurso onde o texto em questão está inserido? A resposta encontramos no versículo 7:

    v.7a - E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes...

    O motivo que levou João Batista a pronunciar tais palavras foi a presença dos fariseus e saduceus. E qual foi o teor de sua mensagem? Foi, claramente, uma advertência sobre a necessidade de real arrependimento e as conseqüências do não arrependimento.

    v.7b – “...Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? v.8 – “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” v.10 – “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo
    A árvore que não produz bom fruto (o fruto digno de arrependimento – v.8) é cortada e lançada no fogo (indiscutivelmente o fogo do juízo, para onde vão todos os que não se arrependem do seu pecado)

    Em seguida, João Batista contrasta a natureza do seu batismo, com a natureza do batismo de Cristo e, contrasta a natureza do batismo para os arrependidos, com a natureza do batismo para os não arrependidos...

    v.11 - E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.
    João contrasta a natureza física de seu batismo (com água), com a natureza espiritual do batismo de Jesus (com o Espírito). E contrasta a natureza do batismo para os arrependidos (com o Espírito Santo) e a natureza do batismo para os não arrependidos (com fogo).

    Cristo é quem batizará os arrependidos com o Espírito Santo e é, também, quem batizará os não arrependidos com fogo (fogo de juízo; de condenação).

    Confirmando esta verdade temos o versículo seguinte...

    v.12 - Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará.

    Cristo tem a pá em sua mão. Ele mesmo recolherá o seu trigo (os arrependidos) e, Ele mesmo queimará a palha (os não arrependidos) no fogo que nunca se apaga (fogo de tormento eterno – Ap 20:10-15).

    Com isto, concluímos que há uma clara conexão no contexto imediato. Quando atribuímos o significado de 'juízo' ao 'fogo' no versículo 11, temos plena harmonia com os versículos 7, 8, 10 e 12.
    Analisaremos agora segundo a lei dos textos paralelos.

    2. Lei dos textos paralelos


    Esta lei define que um texto deve ser interpretado com o auxílio de outros textos que tratam do mesmo assunto.

    Pela lei do contexto chegamos a conclusão que o “fogo” trata-se do fogo do juízo, levando-se em conta que o discurso de João Batista foi uma advertência dada, principalmente, aos fariseus e saduceus. Vamos analisar esta questão verificando os textos paralelos deste episódio: Mc 1:4-8; Lc 3:2-3, 6-9, 16-17 e Jo 1:29-33.

    Em Mc 1:4-8 temos:


    v.4 – Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    v.5 – E toda a província da Judéia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão,
    confessando os seus pecados. v.6 – E João andava vestido de pêlos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre.
    v.7 – E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas.
    V.8 – Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
    Notem que o evangelista Marcos não cita a presença dos fariseus e saduceus, nem tampouco traz a pregação de advertência descrita em Mateus 3:7-10,12. Marcos deu ênfase a mensagem pregada aos arrependidos, logo, apenas contrastou a natureza do batismo de João, com a natureza do batismo de Cristo:

    V.8 – Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.

    Não citando os fariseus e saduceus, nem a mensagem de advertência, omitiu-se o “fogo”.

    Em Lc 3:2-3,6-9,16-17 temos:


    v.2 – Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.
    v.3 – E percorreu toda a terra ao redor do Jordão, pregando o batismo de arrependimento, para o perdão dos pecados;
    v.6 - E toda a carne verá a salvação de Deus.
    v.7 – Dizia, pois, João à multidão que saía para ser batizada por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
    v.8 – Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão.
    v.9 – E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo.
    v.16 – Respondeu João a todos, dizendo: Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.
    v.17 – Ele tem a pá na sua mão; e limpará a sua eira, e ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga.
    Notem que o evangelista Lucas, embora não tenha feito uma menção direta aos fariseus e saduceus, descreveu todo o rigoroso discurso de advertência de João Batista. Isso deixa claro que Lucas apresentou a mensagem de João direcionada aos arrependidos e aos não arrependidos. Mas podemos inferir pelo texto de Lucas que os fariseus estavam presentes na multidão, pois há uma exortação direcionada a eles (v.8) que se gabavam de ser descendentes de Abraão (confiram ainda com Jo 8:33,39). Sendo assim, ele descreve as palavras de João da seguinte forma:

    v.16 – Respondeu João a todos, dizendo: Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.

    Lucas descreve a árvore que não produz bom fruto e é queimada no fogo; descreve a palha que é queimada no fogo que nunca se apaga e, portanto, descreveu a natureza do batismo para os não arrependidos (com fogo).

    Em Jo 1:29-33 temos:


    v.29 – No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
    v.30 – Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.
    v.31 – E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.
    v.32 – E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele.
    v.33 – E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.
    O apóstolo e evangelista João, traz a descrição sobre o batismo de Jesus, para o dia seguinte do interrogatório de João Batista pelos fariseus (v.29). Analisando os quatro evangelhos (que não são contraditórios, mas sim complementares) percebemos que, num dia, João Batista vendo que os fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, fez o discurso de advertência. Ainda neste dia João Batista foi interrogado pelos fariseus (Jo 1:19-28) e, no dia seguinte, Jesus veio para ser batizado. Nesta ocasião o Evangelho de João não menciona a presença dos fariseus e é onde encontramos a afirmação de João Batista:

    v.33 – E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.

    Não havendo a presença dos fariseus e saduceus, não há advertências, nem, tampouco, “o batismo com fogo”.

    Portanto, pela lei dos textos paralelos podemos concluir que “fogo” denota juízo e, por isso, está sempre associado a mensagem de advertência pela presença dos fariseus e saduceus (que foram, também, duramente advertidos por Jesus, por serem hipocritas).

    Agora vamos fazer uma breve análise segundo o princípio hermenêutico do “autor como elemento determinante do significado”

    3. Lei do autor


    Deve-se, sempre que possível, comparar outros escritos do mesmo autor, afim de trazer maior esclarecimento do asanto em estudo. Os autores bíblicos escreveram seus livros em épocas diferentes, em lugares diferentes, sob circunstâncias diferentes... comparar os escritos de autores contemporâneos, também pode ajudar na interpretação do texto.

    Segundo este princípio, faremos uma comparação dos escritos de Lucas que tratam deste assunto.

    Com já vimos anteriormente, no Evangelho segundo Lucas encontramos a pregação de advertência de João Batista e, conseqüentemente, a distinção dos “batismos” (com o Espírito Santo e com fogo). Se analisarmos o livro dos Atos dos Apóstolos, também de autoria de Lucas, encontraremos no capítulo 1 a promessa do batismo por Jesus. E assim foi descrita:

    Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias - (At 1:5)

    Aqui cabe a pergunta: Por que o evangelista Lucas disse em seu evangelho que seriam “batizados com o Espírito Santo e com fogo”, mas em Atos disse “sereis batizados com o Espírito Santo” somente?

    A resposta, mais uma vez, gira em torno da questão: "quem eram os seus ouvintes?”

    No Evangelho, Lucas menciona que João Batista se dirigiu à multidão que vinha se batizar e sabemos pelos textos paralelos que seu discurso foi motivado pela presença dos fariseus e saduceus em meio à multidão. Já no livro de Atos, o discurso foi dirigido aos fiéis discípulos de Jesus que o viram ressurreto.

    Estas ocorrências, mais uma vez, apontam para a aplicação de “juízo” à palavra “fogo”. Quando a mensagem foi dirigida aos arrependidos e não arrependidos, a afirmação foi “sereis batizados com o Espírito Santo e com fogo”; quando a mensagem dirigia-se somente aos arrependidos, a afirmação foi “sereis batizados com o Espírito Santo”.


    Além deste texto temos ainda as palavras do apóstolo Pedro descritas em At 11:16, quando ele dava testemunho do batismo do Espírito Santo também sobre os gentios:

    v.16 - E lembrei-me do dito do Senhor, quando disse: João certamente batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo .
    Mais uma vez, quando a mensagem é dirigida aos discípulos fiéis o "fogo" é omitido.

    Conclusão


    Como bem pudemos verificar, tanto o contexto imediato, quanto os textos paralelos e a análise do autor como determinante do significado, remetem ao “fogo do juízo” (o fogo que nunca se apaga) o significado do termo “fogo” em Mt 3:11. Jesus é quem batiza com o Espírito Santo e também quem batizará no fogo do juízo.

    terça-feira, 4 de julho de 2017

    Aborto: pecado ou opção

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    No domingo, 31 de agosto de 2008, foi publicada na Folha Universal, jornal da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma mensagem de seu líder Bispo Edir Macedo, sobre a atual polêmica da legalização do aborto. Esta mensagem veio em complemento à reportagem sobre o debate aberto no Supremo Tribunal Federal a respeito da interrupção da gravidez em casos de anencefalia (fetos com má formação ou ausência cerebral). Nesta ocasião, o representante da IURD, bispo Carlos Macedo, declarou-se a favor do aborto de anencefálicos. A mensagem intitulada “A fé e o aborto”, traz uma análise do bispo Edir Macedo, abordando o assunto sob três pontos de vista diferentes. Indo na contra mão do que defende a esmagadora maioria das igrejas evangélicas brasileiras, a IURD, na pessoa de seu líder, é a favor da legalização do aborto (não só em casos de anencefálicos, como veremos). O que me causou maior espanto, entretanto, não foi o posicionamento favorável do bispo Edir Macedo, mas sim, a natureza de seus argumentos que quero comentar aqui.

    O bispo Edir Macedo inicia sua mensagem apresentando três pontos de vista passíveis de análise, para discorrer sobre o assunto: o ponto de vista sócio-econômico, o ponto de vista da e o ponto de vista emocional.

    O ponto de vista sócio-econômico

    Sobre o ponto de vista sócio-econômico, o bispo Edir Macedo deixa algumas questões para considerarmos, mas, infelizmente, não as responde, nem faz quaisquer comentários. São elas:

    1) Em que camada da sociedade o índice de natalidade é mais acentuado e por quê?

    2) A quem interessa a multiplicação desordenada de seres humanos? Quem ganha e quem perde com isso?


    Lembrando que estamos tratando do assunto “aborto”, que relevância há o índice de natalidade, ou a “multiplicação desordenada de seres humanos”? Uma vez que o índice de natalidade é maior nas classes mais pobres da sociedade, por falta de planejamento familiar, muitas vezes, estaria o bispo Edir Macedo sugerindo que o aborto é uma opção válida como instrumento de planejamento familiar? Certa vez, fiquei estarrecido ao ler uma opinião semelhante na seção “cartas do leitor” de um jornal secular, mas deparar-me com este argumento vindo de um “bispo evangélico”, causou-me revolta e repúdio. Em minha concepção isto era, simplesmente, inimaginável.

    Ainda do ponto de vista sócio-econômico, o bispo Edir Macedo argumenta:

    3) Porque muitos se mostram contrários ao aborto enquanto o promovem às ocultas?

    4) Por que a mesma consciência que condena o aborto despreza as crianças geradas e criadas à revelia?

    Diante dessas acusações eu pergunto: será que a possível hipocrisia de alguns torna justa a prática do aborto? O fato de alguns (ou muitos, como apontou o bispo Edir Macedo) serem hipócritas torna a causa dos sinceros indigna de defesa? A incoerência de alguns anula a coerência dos outros? Que relevância há para a discussão o fato de alguns promoverem o aborto às ocultas, ou desprezarem as crianças carentes? Isso torna o aborto mais aceitável, ou menos pecaminoso? Certamente que não!

    O ponto de vista da fé

    Do ponto de vista da fé, o bispo Edir Macedo sugere as seguintes questões:
    1) Quais são as chances de uma criança abortada perder a Salvação da própria alma? A resposta para esta pergunta é: Nenhuma. O Senhor Jesus disse: "Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque deles é o reino dos Céus" (Mateus 19.14)

    2) Quais são as chances de uma criança chegar à idade adulta e perder a Salvação da alma? Na parábola do Semeador (...) de cada cem pessoas que ouvem a Palavra de Deus, 25 são salvas

    Pergunto: do ponto de vista da fé, estas são as perguntas mais pertinentes a se fazer com relação ao tema “aborto”?

    Uma vez que o aborto é a interrupção da vida, não seria mais adequado perguntar: a quem pertence a vida do feto? Ou, quem tem o direito de interromper a vida? Quem tem o direito de decidir quando a vida começa e quando termina? Qual o grau de responsabilidade de quem interrompe esta vida?

    Além do mais, o fato da criança ter a sua salvação garantida, não faz do aborto um ato de misericórdia. A salvação da criança não muda o fato de o aborto ser um assassinato, nem isenta os pais (e os que consentem) da responsabilidade.

    Da mesma forma, o fato de haver grandes chances de a criança perder a sua salvação quando crescer, também não dá direito a ninguém de decidir quando a vida dessa criança deve findar.

    Também argumentou o bispo Edir Macedo:

    3) "Se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz do que ele" (Eclesiastes 6.3). Por que isso está escrito na Bíblia?”
    A resposta vem nos seguintes termos: Enquanto a criança estiver na idade da inocência, estará salva. Mas, ao entrar na idade da razão, perdendo, assim, a inocência, estará na dependência do perdão dos seus pecados e da aceitação de Jesus como seu Senhor e Salvador.
    Vamos deixar claro um princípio aqui. Quando uma criança morre, no que o bispo chamou de “a idade da inocência”, a sua salvação está garantida, não porque ela é justa, mas porque Deus, pela sua Graça e Misericórdia, decidiu que ela fosse salva. Não é o primeiro pecado que faz do homem um pecador, mas é por ser um pecador que o homem comete o primeiro pecado. Nós herdamos de Adão esta natureza pecaminosa e todos carecemos da graça e misericórdia de Deus (tendo ou não executado o primeiro pecado). Logo, não é pela própria justiça que a criança é salva, mas pela Graça divina.

    Com relação ao versículo que o bispo citou, é bom salientar que o livro de Eclesiastes trata de uma observação que o autor fez de tudo o que se faz debaixo do sol. Esta expressão se repete muitas vezes no decorrer deste livro e nos indica o real sentido em que as passagens devem ser interpretadas.

    Em Ec 6:3, por que o autor afirma que um aborto seria mais feliz do que um homem de longa vida que não se fartou do bem? Porque o aborto não teve alegrias nesta vida, mas também não padeceu necessidades e aflições, logo, se um homem viveu longos anos, mas em enfado de aflições, está em pior situação do que um aborto (no que se diz respeito a vida terrena). Por outro lado, qualquer pessoa que vive, mas tem alegria e contentamento está, com certeza, em melhor situação do que um aborto, que foi privado de sua vida terrena.

    Portanto, é incoerência usar o texto de Ec 6:3 como argumento pró-aborto. Além disso, o texto trata da situação do feto abortado e não dos que cometem e consentem com o aborto.

    Ainda do ponto de vista da fé, o bispo argumenta:
    “Como um dos mandamentos da lei divina, ‘não matarás’ trata do direito do ser humano à vida. Não creio que Deus estivesse focando os seres ainda em formação quando proferiu tais palavras. Contudo, isso não significa que a vida de um feto deva ser interrompida indiscriminadamente. Há, porém, situações em que não há outra alternativa (...) O mandamento ‘não matarás’ não se aplica ao aborto de um ser que ainda não está formado. A bíblia considera o feto como uma ‘substância informe’.”
    Bem, se o bispo Edir Macedo entende que o mandamento de “não matarás” garante o direito do ser humano à vida, mas ainda assim, não crê que este mandamento se aplica ao feto, então, isso revela que, para ele, o feto não é um ser humano. Essa idéia me lembra as opiniões de alguns cientistas quando debateram a respeito do uso de células tronco embrionárias (uso do qual também sou contrário). Naqueles dias ouvi um cientista dizer que um embrião que não terá chance de se desenvolver, não pode ser considerado um ser humano. Esse argumento me parece, tremendamente, irracional! Ora, um óvulo humano, fecundado por um espermatozóide humano, só pode gerar um ser humano! Nenhuma célula embrionária humana vai gerar um cachorro, ou um peixe, ou uma planta. O ser humano o é, independente de seu estágio de formação.

    Infelizmente, isso não parece ser verdade para o bispo Edir Macedo. O que muito me surpreendeu (confesso que me escandalizou, até) foi o fato de o bispo defender que há situações onde o aborto é a única alternativa. A meu ver, a única situação que justificaria tal ato é no caso de alto risco de morte para a mãe. Mas esse pensamento passa longe do que advoga o bispo Edir Macedo. Fazendo mais uma menção inconseqüente da Palavra de Deus, o bispo afirma que a Bíblia trata o feto como uma substância informe, em outras palavras, como algo e não como alguém. Mas o que a Bíblia, realmente, diz a respeito:

    O Sl 139:16 diz:

    “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”
    ARA*

    “Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia”
    ACRF*

    O texto em referência não trata o feto como uma substância. Este texto é uma declaração do salmista a cerca da onisciência de Deus, que nos conhece ainda antes que o nosso corpo seja formado. Antes que qualquer substância fosse gerada no ventre, o Senhor já nos conhecia! Este é o sentido do texto.

    Analisando outros textos podemos notar que para Deus a vida intra-uterina é tão importante quanto a nossa vida.

    “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jr 1:5)
    – Jeremias foi chamado por Deus, para ser profeta, antes de ser gerado no ventre de sua mãe.


    “Ouvi-me, ilhas, e escutai vós, povos de longe: O SENHOR me chamou desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe fez menção do meu nome” (Is 49:1)
    – Isaías, dentro do ventre de sua mãe, já era chamado por Deus pelo nome.

    “Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe” (Lc 1:15)
    – João Batista foi cheio do Espírito Santo, ainda no ventre de sua mãe.

    Mas dentre os textos bíblicos referentes a este assunto, há um que considero muito especial – Ex 21:22-23:

    “Se alguns homens pelejarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, porém não havendo outro dano, certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e julgarem os juízes. Mas se houver morte, então darás vida por vida"
    (ARCF)


    “Se homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e ela der à luz prematuramente e, não havendo, porém, nenhum dano sério, o ofensor pagará a indenização que o marido daquela mulher exigir, conforme a determinação dos juízes. Mas, se houver danos graves, a pena será vida por vida”
    (NVI)

    Este texto declara que em caso de aborto (interrupção do período normal da gestação), aquele que o causou (ainda que por acidente) deveria ser punido conforme a lei da retaliação: olho por olho e dente por dente. Se não houvesse morte, nem do bebê, nem da mãe, o culpado pagaria o que fosse estipulado pelo marido. Mas se ocorresse a morte da esposa, ou do bebê (seja em estágio fetal ou não), o culpado pagaria com a própria vida! Vida por vida.

    Portanto, a Palavra de Deus trata o feto como um ser humano, como alguém, não, simplesmente, como uma substância informe.

    Prosseguindo com a leitura desta infeliz matéria, pude comprovar o que eu só suspeitava quando comecei a lê-la (suspeitava, mas me recusava a acreditar). A declaração seguinte do bispo Edir Macedo, caiu como uma bomba no meu coração! Ele disparou:

    “Não sou contra a concepção, por questão de fé. Mas, pela mesma razão, não sou contra o direito que a mulher tem de interromper o desenvolvimento do feto se suas condições não atenderem às necessidades básicas de uma criança”
    Desde quando, a falta de recursos dá à mãe direitos sobre a vida do filho? Que tipo de fé é essa professada pelo bispo Edir Macedo que nega a soberania de Deus na decisão da vida ou da morte? Se toda a vida pertence a Deus, que direito tem a mãe sobre a vida do filho? Ninguém tem o direito de privar-se da própria vida, o que dirá da vida do outro! Aquele que atenta contra a própria vida é passível de punição, como não seria o que atenta contra a vida do filho?

    O bispo parece ter encontrado a solução para a miséria e para o crescimento desordenado da humanidade! O que você não puder sustentar, mata! – Essa parece ser a proposta do bispo. Você já tem dois filhos e o terceiro não é planejado? Então, aborta!. Para o bispo Edir Macedo, a pobreza justifica o assassinato! Soluções simples como o a entrega do bebê para a adoção, nem sequer foi cogitada pelo bispo Edir Macedo!

    Como se já não fosse o bastante, ele ainda termina sua mensagem com argumentações que são até difíceis de comentar, de tão descabidas:

    “É sabido que a promiscuidade é fruto da falta de temor a Deus, mas o aborto não seria um estímulo à sua proliferação? Com ou sem aborto, a promiscuidade continuará a se proliferar cada vez mais aceleradamente por causa da corrupção do gênero humano.”
    Embora eu, realmente, acredite que a liberação indiscriminada do aborto, seria sim, um estímulo à promiscuidade, eu não quero entrar nesta questão. Mas o que eu me pergunto diante de tal argumento é: o fato da prática do aborto não estimular o avanço da promiscuidade, faz do aborto algo aconselhável? Porque muitos são promíscuos, o feto pode ser assassinado? A corrupção do gênero humano isenta, os que praticam e consentem com o aborto, da responsabilidade da vida perdida? Claro que não! É certo que nenhum homicida (não arrependido) herdará o reino de Deus (Gl 5:19-21; Tg 2:11; 1jo 3:15; Ap 21:8; Ap 22:15).

    O bispo continua:

    “Temos ainda que analisar o seguinte: A força da lei impede o aborto?”
    Não, não impede! Assim como também não impede os roubos, os estupros, o tráfico de drogas, os homicídios e, no entanto, nada disso deve ser legalizado por isso! E nada disso é menos grave por isso!

    Em seguida o bispo argumenta:

    “Quem mais ganha com a multiplicação de almas, o Reino de Deus ou o reino de Satanás?” Qual é a probabilidade de um recém-nascido vir a aceitar Jesus como Senhor e Salvador quando crescer?”
    Para o bispo, a menor probabilidade de conversão, justifica o assassinato. Mais uma vez ele muda o foco da questão! O aborto é um atentado contra uma vida indefesa e inocente. O feto é a única vítima e, a condição espiritual da vítima, não interfere na gravidade do crime, nem isenta da culpa, os criminosos. E, uma vez que, toda vida é dada por Deus, esta declaração do bispo Edir Macedo faz Deus parecer inconseqüente, já que, segundo ele, a multiplicação de almas favorece o reino de Satanás.

    E, finalizando a sua análise do ponto de vista da fé, o bispo Edir Macedo declarou:

    “O que é mais pecaminoso, a relação sexual ilícita ou o aborto? De acordo com a bíblia, pecado é pecado, independente de ser considerado pequeno ou grande, pois qual é a diferença entre pecadinho e pecadão, se ambos levam à morte eterna?”
    – e assim ele encerra sua argumentação do ponto de vista da fé.

    É difícil determinar onde o bispo Edir Macedo quer chegar com esta declaração, já que suas palavras entram em contradição com tudo aquilo que ele vinha argumentando até aqui! Com esta declaração ele acaba de afirmar que o aborto é sim um pecado! E um pecado tão grave quanto a relação sexual ilícita, sendo, portanto, dignos de “morte eterna”! Sendo assim, por que o aborto não se aplica ao mandamento “não matarás”, como argumentou anteriormente? Que tipo de pecado é o aborto, então? Sendo, o aborto, um pecado que leva a morte eterna, que tipo de fé é essa professada pelo bispo Edir Macedo que apóia o aborto por não haver risco de a criança perder a sua salvação, mas que, em contra-partida, ignora a alma da mãe e dos responsáveis, condenado-os ao inferno? Sendo o aborto um pecado que leva à condenação, que circunstância justificaria tal ato? Será que o crescimento desordenado da humanidade, ou a pequena probabilidade de salvação, ou a hipocrisia de alguns no tratar do aborto, ou, ainda, a falta de assistência às crianças carentes, ou o inevitável aumento da promiscuidade humana, são motivos suficientes para que o aborto seja realizado e justificado diante de Deus? Eu acredito que não!

    Do ponto de vista emocional, o bispo Edir Macedo apresenta um único questionamento:

    “Do ponto de vista emocional, os argumentos contra o aborto são ainda mais fortes, principalmente por parte daqueles que conseguem criar os próprios filhos de forma adequada, isto é, sem deixar faltar-lhes pão, casa, educação e tudo o mais que é necessário ao desenvolvimento saudável de uma criança. É muito confortável, para os que têm condições, ser contra o aborto, sem se importarem com os que passam fome. Deus abençoe a todos.”
    Mais uma vez o bispo Edir Macedo deixa claro que, para ele, a pobreza justifica o aborto. E, neste caso, ele alega que, os que advogam contra o aborto, o fazem por falta de empatia com a miséria da sociedade. Mas eu pergunto: é uma atitude racional matar uma criança por não poder criá-la? Será que nossa sociedade (governantes e governados) está tão decadente e falida que não deixa nenhuma alternativa viável às mães que não tem nenhuma condição de criar seus filhos, a ponto de só restar-lhes o aborto? Não sou tão pessimista assim!

    E não seria por uma questão fortemente emocional que muitos lutam pela legalização do aborto? Com certeza! As mães que optam por abortar um filho fruto de estupro, não o fazem por não suportar lidar com a lembrança de que aquela criança foi o resultado de um ato de extrema violência? E é razoável que a criança pague pelo crime do pai? Os pais que optam pelo aborto em casos de anencefalia, não o fazem por não conseguirem lidar com a desesperança de vida na previsão médica? Não o fazem por não quererem lidar com a morte prematura da criança? Não o fazem, muitas vezes, para que não se apeguem a criança e venham a sofrer ainda mais depois? Não é também por uma questão emocional, que os que tem uma vida promíscua, optam pelo aborto, por não suportarem assumir as conseqüências de seus próprios pecados?

    São muito mais fortes os apelos emocionais dos que defendem o aborto, dos que os que são contra ele. Os que defendem o direito ao aborto, ignoram os direitos que a criança tem à vida e desprezam a verdade de que Deus é o único digno de decidir sobre o tempo de vida de cada ser humano sobre a terra.

    Notas:
    ARA – Tradução Almeida Revista e Atualizada
    ACRF – Tradução Almeida Corrigida e Revisada Fiel.
    NVI - Nova Versão Internacional
    Para ler o artigo na íntegra acesse:
    http://www.folhauniversal.com.br/integra.jsp?codcanal=9988&cod=136763&edicao=856
    Para mais posicionamentos da IURD leia também:
    http://tempora-mores.blogspot.com/2007/10/edir-macdo-aborto-homossexualismo-e.html